Lúcifer – o Diabo à Porta | Mitologia adulta para não cartesianos
Caso você venha a ter crenças – desc
renças – ou convicções pessoais sobre metafísica, razões existenciais e valores sociais cartesianos, deixe isso de lado ao começar a folhear as páginas de alguma publicação da Vertigo. De todo modo, se tais questões estão fortemente enraizadas em seu modo de vida, é provável que nunca tenha tido contato com os verdadeiros petardos que a mitologia adulta deste selo da DC Comics oferece há anos.
Com Lúcifer – O Diabo à Porta não é diferente. Em edição de capa dura da Panini reunindo os quatro volumes de The Sandman Presents: Lucifer lançados, a história volta a estar disponível nas bancas e livrarias desde julho deste ano para os fãs da mitologia Vertigo, de conhecidas figuras como Constantine e Sandman. Publicada inicialmente em 2000, descreve o que seria uma breve jornada do antigo senhor do Inferno, o qual abdicara do cargo alegando cansaço. Como pianista em um clube norturno, Lúcifer aproveita sua aposentadoria de forma pacata, longe de ser a figura abominável e beligerante descrita através dos séculos de História. Um dos pontos de grande interesse é a forma como a dicotomia Bem X Mal é tratada como piada, além da negação de mitologias alheias que os homens, independente de suas religiões, costumam adotar até hoje. O Pós-vida não passa de uma extensão – mais elegante, deveras – do que é o mundo material: um salão de intrigas onde todos têm o seu valor, até mesmo um anjo caído.
Aliás, o protagonista, Estrela da Manhã, que já era um coadjuvante de sucesso em Sandman, mostra ao leitor os atributos de um “coisa-ruim sedutor”, irônico, ácido e manipulador. Personalidade bastante real e mundana, mas divergente do papel clássico de diabo pelo desprendimento pelas almas humanas, substituido por uma súbita busca individual. Mais uma vez a Vertigo trabalhando de forma magistral, mostrando uma particularidade comum à maioria dos títulos que lança: a desconstruição do meio e não do personagem. Não é Lúcifer que é humanizado, mas nós é que somos todos bastante como o diabo.
Destaque para o roteiro excelente de Mike Carey, um semideus do gênero, pertencente ao mesmo panteão de Neil Gaiman, e arte de Warren Pleece, Chris Weston e o fabuloso Scott Hampton, um dos melhores desenhistas do Homem-Morcego em todos os tempos.












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